Compliance no Brasil avança pouco: o que a nova pesquisa revela sobre maturidade, riscos e o papel das médias empresas

novembro 24, 2025

Um retrato incômodo da maturidade de compliance

Uma nova pesquisa divulgada pela KPMG, citada pelo portal Contábeis, mostra uma realidade que ajuda a entender o momento das empresas brasileiras: a maturidade dos programas de compliance praticamente não evoluiu nos últimos três anos.

Em uma escala de 1 a 5, a pontuação média saiu de 3,07 em 2021 para apenas 3,09 em 2024. Ou seja, apesar de avanços em digitalização, normas contábeis e da própria reforma tributária, as práticas de governança e controles internos seguem praticamente estagnadas.

Esse dado é especialmente relevante para as médias empresas, que costumam ter menos estrutura e mais exposição operacional, tributária e reputacional.

O que a pesquisa mostra

1. Evolução mínima da maturidade de compliance

A variação de 3,07 para 3,09 indica que muitas empresas avançaram em documentos, mas não em estrutura e efetividade. Políticas existem, mas nem sempre são incorporadas à rotina, testadas ou monitoradas de forma consistente.

2. Revisão pouco frequente dos programas

Cerca de 68% das empresas afirmam revisar o programa de compliance apenas uma vez por ano. Em um ambiente de transformação regulatória constante – com reforma tributária, novas exigências de reporte e mudanças tecnológicas – essa frequência é insuficiente para garantir integridade e aderência.

3. Uso desigual de tecnologia

Mesmo com a evolução de ERPs, APIs, dashboards e automações fiscais, boa parte das empresas ainda depende de controles paralelos, planilhas desconectadas e baixa rastreabilidade. Isso dificulta qualquer tentativa de monitorar riscos de forma estruturada.

A conclusão é clara: as organizações tentam ser resilientes, mas não reforçam adequadamente as bases de governança e controles que sustentam essa resiliência.

Por que isso importa para médias empresas?

Se grandes empresas – com orçamento, times dedicados e estrutura – já enfrentam dificuldade para evoluir, o impacto sobre médias empresas é ainda mais sensível. Em geral, elas convivem com:

  • menos estrutura organizacional e equipes enxutas;
  • processos mais informais e dependentes dos sócios;
  • sistemas menos integrados e subutilização do ERP;
  • fornecedores dispersos e cadastros pouco padronizados;
  • controles internos mais frágeis e pouco documentados;
  • exposição crescente diante da reforma tributária e de novas exigências regulatórias.

O risco não é apenas regulatório. É operacional, financeiro, societário e reputacional. Afeta diretamente:

  • auditorias e demonstrações contábeis;
  • apuração e recolhimento de tributos;
  • contratos com clientes, fornecedores e parceiros;
  • análises de crédito e relacionamento com bancos e fundos;
  • decisões de investimento e sustentabilidade do negócio.

O ponto de virada: compliance como vantagem competitiva

O relatório reforça um movimento que já aparece na prática: empresas com compliance maduro crescem mais e quebram menos.

Para quem está no middle market, isso significa enxergar o compliance não como custo, mas como alavanca competitiva:

Mais previsibilidade de resultados

Controles internos bem desenhados reduzem erros, retrabalho e surpresas contábeis ou fiscais.

Maior precisão tributária

Com a chegada do IBS/CBS, empresas com baixa governança tributária terão maiores riscos de créditos indevidos, glosas e autuações – com impacto direto em caixa e margem.

Melhor acesso a crédito e capital

Transparência, dados estruturados e governança consistente já são critérios relevantes na análise de risco de bancos, fundos e investidores.

Relacionamento mais forte com grandes clientes

Cadeias de suprimentos mais maduras exigem fornecedores com conformidade mínima. Empresas que não conseguem comprovar integridade e controles podem deixar de ser elegíveis.

O que a H2K observa na prática

Na atuação da H2K com médias empresas, um padrão se repete: não falta vontade de melhorar – falta método.

Os “gargalos” mais frequentes incluem:

  • controles internos não formalizados ou pouco documentados;
  • processos desconectados entre contabilidade, fiscal, financeiro e DP;
  • ausência de matriz de riscos estruturada;
  • cadastros de clientes, fornecedores e produtos incompletos ou inconsistentes;
  • dependência excessiva de planilhas manuais;
  • falta de trilha de auditoria e registro de evidências;
  • ERP subutilizado, com poucos controles realmente ativados;
  • inexistência de revisão periódica do programa de compliance e da governança.

Em resumo, o problema é menos técnico e mais estrutural – mas é totalmente possível de ser endereçado com um plano de ação bem desenhado.

Caminhos para fortalecer médias empresas agora

Com base na pesquisa e na experiência prática, três movimentos se mostram urgentes:

1. Criar uma matriz de riscos integrada

Mapear não apenas riscos legais, mas também riscos de processo, tecnologia, tributários, contábeis e operacionais. A matriz deve ser viva, revisada e conectada aos controles existentes.

2. Revisar processos críticos antes de 2026

A chegada da reforma tributária exige atenção especial a:

  • compras e cadastro de fornecedores;
  • faturamento e emissão de documentos fiscais;
  • apuração fiscal e conciliações contábeis;
  • provisões, contingências e contratos com partes relacionadas;
  • governança societária e formalização de decisões relevantes.

3. Estruturar um programa de compliance proporcional ao tamanho da empresa

O objetivo não é copiar o modelo de uma grande corporação, mas ter um programa simples, objetivo e efetivo:

  • políticas claras e enxutas;
  • canais de comunicação e denúncia minimamente estruturados;
  • procedimentos de controle em pontos críticos;
  • treinamentos focados nos riscos reais da empresa;
  • monitoramento periódico, ainda que básico, do que foi desenhado.

Isso reduz riscos, organiza o negócio e aumenta a confiança de todos os stakeholders.

Conclusão

A pesquisa mostra números modestos, mas o recado é profundo: a maturidade de compliance no Brasil estagnou – e o risco aumentou.

Para as médias empresas, 2025 é uma janela decisiva: é o momento de fortalecer governança, controles internos e compliance antes da maior mudança tributária das últimas décadas.

Mais do que “evitar problemas”, trata-se de construir vantagem competitiva: operações mais previsíveis, relações mais sólidas com bancos, clientes e investidores, e uma empresa preparada para crescer com segurança.

Fale com a H2K Auditores e Consultores para estruturar um diagnóstico de riscos, revisar controles internos e elevar a maturidade de compliance da sua empresa.

Fonte: Pesquisa de maturidade de compliance – KPMG (dados divulgados e comentados pelo Portal Contábeis).